Nem tudo são flores no caminho do home-office


Carlos José Pereira 
Empresário da área de tecnologia, vice-presidente do Seprosc 

 

Em 1898, em Nova Iorque, delegações do mundo inteiro procuravam soluções para problemas comuns de grandes cidades. Um dos assuntos era a poluição provocada por um meio de transporte: o cavalo. A poluição, causada pelo “cocô” nas ruas, tomava proporções alarmantes. (1)

Previsões para Londres davam conta de um acúmulo de esterco que chegaria a 3 metros em 40 anos. Nova Iorque, até 1930, teria “bosta” acumulada até o segundo andar de um edifício. (2)

Essas previsões não se efetivaram. A tecnologia salvou o mundo, graças ao bonde e à popularização dos automóveis. 

As crises trazem à tona um estado excepcional do sistema; o normal passa a ser o não permitido, o não necessário. Faz-se o inabitual, alteram-se estados que normalmente não se transformariam. (3)

Uma crise mexe com a estabilidade do sistema, cria uma desordem. Os tabus desabam e a realidade impõe uma mudança rápida e necessária para a sobrevivência do sistema. 

Visando o bem-estar de nossos colaboradores e o menor impacto em nosso negócio, adotamos o home-office bem cedo, assim que OMS declarou a pandemia da Covid-19. Em nossa matriz em Blumenau dispúnhamos de um plano de contingência para períodos de enchente, e o adaptamos rapidamente para a pandemia. A novidade era a inclusão das filiais de outras cidades do país. 

 

Home-office era opção muito pontual para o caso de enchentes na cidade da matriz. Nunca consideramos para toda a organização. Tínhamos restrições a respeito. 

A pandemia obrigou-nos ao inabitual, à transformação das estruturas; uma adaptação forçada a um entorno inóspito, com instabilidades diferenciadas.  

Nas crises se apresentam oportunidades e o home-office passou a ser visto como uma oportunidade, uma solução viável e funcional. Funcionou muito bem. Por que não o adotar quando a crise for embora? 

 

As vantagens e as desvantagens agora eram nítidas e não imaginadas. Vantagens nunca pensadas deram força para o home-office, superando eventuais desvantagens. As desvantagens bem analisadas podem ser minoradas através da implementação de  regras e controles. 

A teoria da evolução trata de mudanças estruturais não planejadas que se mantêm, quando essas mudanças estão de acordo com o ambiente. Nos contextos evolutivos, há o resultado consolidado de uma fase que serve de base para a variação seguinte. (4)

A estrutura das organizações é fluida; estruturas fluidas não significam falta de estrutura, significam apenas que não são rígidas e podem se alterar e evoluir. 

Organizações têm diferentes realidades. Nem todas podem adotar o home-office integralmente. Gestores podem inovar. Não existe uma solução única.  

 

Algumas áreas, como a área de tecnologia, são privilegiadas.

Há o que a teoria das formas classifica como uma re-entry, (Spencer Brown), ou seja, a tecnologia auxilia as empresas que trabalham com tecnologia. (5) 

 

Mas nem tudo são flores no caminho do home-office e todos os aspectos devem ser ponderados: sociais, organizacionais e principalmente aspectos legais.  

Nossa empresa é especializada para o mundo jurídico e, por isso,  pudemos ver o movimento do CNJ e dos gestores nos tribunais para dar continuidade às atividades em home-office. Eles processam informações. A atividade é muito semelhante à nossa. Operam tecnologia social, mas o judiciário é basicamente um sistema de comunicação e todas os ferramentais disponíveis hoje podem permitir uma imensa evolução na área.  

O fato de parlamentares e juízes terem sido forçados à modalidade home-office facilitará a continua evolução das leis e normas jurídicas. Obviamente haverá efeitos colaterais não desejados, como o sacrifício da socialização. Essa modalidade de prestação de serviços deverá se popularizar. Os efeitos colaterais benéficos serão enormes no trânsito, poluição e acidentes de percurso 

 

As eventuais flexibilizações legais trarão benefícios para empregados e empregadores.

Tabus serão destruídos, mormente aqueles amparados em discursos repetidos e desgastados. Algumas entidades e seus representantes terão que evoluir. 

No plano social as empresas certamente criarão regras para manter os colaboradores em contatos pessoais, ainda que esporádicos. A empresa precisa manter seu caráter corporativo. O colaborador deve se sentir parte de uma organização com metas e objetivos bem definidos. Pretendo abordar, num próximo artigo, medidas específicas adotadas na empresa e levantar questões práticas para ação dos legisladores.

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(1) DEURSEN, Felipe van. Antes do carro, o caos das grandes cidades era o cavalo;
Disponível em: Deursen https://super.abril.com.br/blog/contaoutra/antes-do-carro-o-caos-das-grandes-cidades-era-o-cavalo Acesso em: maio. 2020.

(2) Ibidem.

(3) LUHMANN, Niklas. Introdução à teoria dos sistemas; tradução : Ana Cristina Arantes Nasser, 3 ed. Petrópolis bzes, 2011, p. 180-181.

(4) LUHMANN, Niklas. O direito da sociedade; tradução: Saulo Krieger tradução das citações em latin Alexandre Agnolon. São Paulo. Martins Fontes, 2016, p. 361-362.

(5) BROWN, George Spencer. Laws of form; Library of Congress Catalog Card Number: 72-80668, New York: 1972.

Publicado em: 16/06/2020 16:53:03

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